11 Agosto, 2009

Tenha um Plano B!


Olá! Há muito não escrevia nada por aqui. E o pior mesmo é reparar que nos últimos três textos tenho iniciado sempre desta forma. Tenho sido um autor ausente, displicente, relapso. Enfim, hoje recebi uma ligação tão interessante na empresa que tive que registrá-la por aqui. Este tipo de ligação mostra que, para tudo na vida, é essencial ter sempre um plano B, principalmente se você deseja trabalhar com telemarketing.

O telefone toca e era uma Bárbara querendo falar comigo:

- Sr. Marcus, aqui quem fala é Bárbara Gomes. Eu trabalho na “Não Sei o Que Lá” Consultancy, uma multinacional com larga atuação no mercado. (?) Nossa empresa trabalha avaliando a qualificação real de profissionais que ocupam cargos de gerência em diversas instituições ao redor do mundo. Como vimos que o senhor trabalha com uma equipe gostaríamos de verificar se está realmente preparado para enfrentar este mercado competitivo e globalizado no qual competimos diariamente.

- Ah é? Tá.

- Então vamos prosseguir. O senhor tem inglês fluente?

- Sim. (convicto)

(silêncio de 5 segundos)

- Ah é? Quer dizer que o senhor sabe inglês então, né?

- Aham. (frio)

- Ah. Era só isso mesmo então. Já que o Sr. Sabe, ta tudo bem então. E.... é... Parabéns também... por... estar preparado para enfrentar.... este mercado competitivo e globalizado no qual competimos diariemente, né? Tchau.

Fim da ligação.

Qualquer resposta diferente de um SIM, com confiança, algo como “Ah, falar eu falo, mas tenho que praticar mais” ou “Eu entendo melhor do que falo, mas me viro bem” resultaria em algo que começaria com “Então Sr. Marcus, nossa empresa está presente em 50 países do mundo e tem mais de 689 anos de experiência no ensino de idiomas. Estamos oferecendo nessa ligação uma oferta promocional. Não oferecemos cursos, oferecemos investimentos para a sua vida. O mundo globalizado é...” e não teria mais hora pra terminar.

Enfim, isto me fez refletir sobre como agir na próxima ligação de bancos oferecendo cartões de crédito ou da Oi oferecendo um novo serviço. Pra quem quiser ser educado e não desligar na cara, aí vai a receita: recorte palavras de um jornal recente (ok, pode imprimir a primeira página do G1 ou do Terra), coloque numa cumbuquinha, sorteie palavras aleatoriamente, monte frases e responda todas as perguntas com elas, com convicção.

- O senhor já conhece o nosso cartão, com anuidade zero e os melhores juros do mercado?

- Sarney suíno avião caiu!

- Senhor?

- Twitter Alemão Massa a Melancia!

08 Abril, 2008

5 maneiras para não deixar de perder uma oportunidade de emprego

Há tempos não escrevia nada por aqui. O tempo curto, as muitas obrigações de trabalho e outras acabam tomando quase todo o tempo e não resta muita oportunidade para produzir algo. Porém, nas últimas semanas tenho realizado um processo seletivo para dois cargos na empresa em que trabalho: auxiliar de estoque e vendedora interna. Já foram dezenas de entrevistas e pelo menos duas tristes constatações: 1- Existe muita gente procurando emprego sem a menor condição de trabalhar na função pretendida. 2- Existem muitas empresas tentando contratar para funções simples e tendo grande dificuldade em encontrar pessoas com o mínimo de capacitação.

Após três semanas de processo seletivo, nada melhor do que compartilhar com vocês as cinco melhores maneiras de não deixar de perder uma nova oportunidade de trabalho. Vale observar que a formação mínima para os cargos era ensino médio concluído e a grande maioria dos candidatos foi selecionada através de dois dos maiores sites de currículos na Internet.

1- Sinceridade

- Você se considera uma pessoa ágil para aprender sobre novos produtos? Tem facilidade para trabalhar com o computador?
- Hum... Olha só, computador eu nunca uso não, não tenho a menor noção de como que usa isso. Pra aprender eu acho que sou meio devagar, custo a pegar as coisas, mas se tentar muito, acho que dá certo.

2- Fluência verbal

- Você chegou a dar uma olhada nas atribuições da vaga?
- Ué, tipo. Eu falei com os pessoal lá em baixo e eles me falou que era pra fazer uns telemarketing, fazer umas venda, uns atendimento ao público, né?

3- Senso de oportunidade + honestidade

- Então você está para decidir entre três universidades nas quais você foi aprovada no vestibular, certo?
- Sim.
- E qual pretende fazer?
- Pra falar a verdade, nenhuma delas. Na verdade, quero ser comissária de bordo, mas como o curso é caro, preciso arrumar um trabalho qualquer pra conseguir pagar. Aí to aí na luta pra conseguir algo.
- Só pra entender direito. Quer dizer que você está buscando um trabalho apenas pra pagar outro curso de pequena duração para logo depois abandonar o emprego?
- Isso mesmo.

4-
Pontualidade e comprometimento

Às 7:35 da manhã, toda a equipe de vendas estava reunida para receber a nova funcionária, selecionada após duas entrevistas, nas quais esteve presente sempre com meia hora de antecedência em relação ao horário marcado. Às 8hs, a nova funcionária não havia aparecido e às 9hs decidimos ligar pra saber se ela havia morrido, sofrido algum acidente gravíssimo, ou até mesmo sofrido perda repentina de memória, visto que a última entrevista havia acontecido no final da tarde anterior.

- Alô, fulana? Está tudo bem? Ficamos esperando por você aqui hoje.
- Ah, tudo bem? Já ia te ligar agora. Olha só, queria te agradecer pela oportunidade aí, mas acabou que ontem de noite me chamaram pra uma outra oportunidade, aí eu resolvi ir pra lá.

5-Currículo bem redigido



20 Dezembro, 2007

Vendendo o VOIP


Do último texto postado para este, muitas coisas mudaram. Agora pertenço ao mundo dos homens casados. A correria foi tanta nestes últimos seis meses que não deu muito tempo para escrever. Porém, uma história recente me obrigou a produzir este texto! Existem situações que exigem registro.

Estava no trabalho, em mais uma tentativa de redução de custos, agora avaliando contas telefônicas, ligações interurbanas e operadoras de telefonia. Foi quando fui surpreendido com a visita de um de nossos clientes, oferecendo a venda de um VOIP. É isso mesmo, um dos nossos clientes – vale observar que trabalhamos com pedras decorativas – vendendo um serviço de Internet. Até aí, nada anormal. Ainda mais considerando a atual situação em que as pessoas trabalham três turnos, estudam de madrugada e fazem quase qualquer coisa para complementar a renda.

O nosso cliente estava acompanhado de um policial aposentado. Os dois falavam sem parar sobre como o VOIP mudaria a minha vida e a realidade da minha empresa. Pra quem não sabe, VOIP é um serviço telefônico que funciona pela Internet. Você faz e recebe ligações por meio da Web. Tem como uma das maiores vantagens o fator custo de alguns tipos de ligação e, como maior desvantagem, a chatice e insistência de alguns de seus vendedores, que provavelmente foram treinados em atendimentos de vendas de cartões de crédito.

Não sei porque, mas algo me dizia que alguma coisa estranha estava acontecendo naquele momento. Um ex-policial de meia idade e um empresário de outro ramo tentando me empurrar um serviço, nem tão novo assim, como a maior das novidades da terra. Por respeito continuei a ouvi-los pacientemente. Bom, nem com tanta paciência assim. Pedi logo pra testar o tal VOIP. Fizeram um teste básico no meu computador e funcionou como o esperado. A vantagem é que instalaram o VOIP e desconfiguraram a minha rede.

Já ligeiramente irritado, disse que queria saber ao certo quanto teria que pagar para ter o tal serviço. Foi aí que a coisa mudou muito de figura. Enquanto na Internet existem diversos serviços que você paga 15 reais por mês e tem direito a uma linha VOIP, me informaram sobre uma taxa de adesão de 500 reais!!! Isto só pra ter direito a uma linha virtual. Incrível, não?

De repente toca o telefone do vendedor. Suas falas ao telefone faço questão de reproduzir:

- Alô!
- Fala, Fulana! Tudo bem? Estamos aí no campo, né? (campo?)
- É isso aí, mais um contemplado! 100%! (contemplado??)
- O que? Ah sim. Só uma coisa, você está usando o VOIP neste momento? Está? Ah que bom. Que sorte a minha. Estou aqui visitando um cliente. Se não for muito trabalho, queria que você dissesse a ele o que você achou. Fale a verdade, se achou ruim, pode dizer! (!!!)

Os parênteses acima referem-se aos meus pensamentos enquanto ouvia seus comentários. Ainda meio bobo com a ligação, peguei o telefone, aliás, ele colocou o telefone na minha mão e me mandou falar com a tal cliente. Aí vem a parte mais inacreditável:


- Alô!
- Alô, quem fala?! – Com voz bem animada e feliz.
- Bom... É Marcus.
- Oiiiiii Marcus, tudo bom!!!???
- É... tudo.
- Está aí vendo as maravilhas que o VOIP pode te proporcionar??
- Estou tentando conhecer um pouco do sistema, mas...
- É isso aí. Com o VOIP você economiza até 70% nas ligações locais e interurbanas. E tem mais, comprando agora você ainda tem um desconto especial nas primeiras mensalidades!!
- Ah, sei. Mas...
- É, faça como eu! Adquira o VOIP e fique 100% satisfeito!
- Então ta. Tchau.
- Tchau!!!!!!!!!!!!

Enquanto me recuperava, o vendedor pegou de volta o telefone e disse:

- Me desculpe. São ligações de clientes satisfeitos. Acontece o tempo todo.

Depois deste comentário, eu juro que passou pela minha cabeça procurar a câmera escondida ou tentar desligar o letreiro de idiota que deveria estar em Néon na minha testa.

Enfim, agradeci muito e fiquei de dar a resposta do contrato no outro dia. O interessante é que nem precisei inventar nenhuma desculpa. Naquelas almas ainda havia pelo menos uma gota de bom senso e ambos nunca mais apareceram.

30 Maio, 2007

Conversas de elevador

Quanto mais alto for o andar em que você mora, mais próximo do infinito é aquele período em que você e desconhecidos habitam um cubículo metálico, aguardando a viagem que parte do térreo, ou da garagem, e leva até o andar de destino.

- Esfriou né? Pergunta a menina olhando para o espelho do elevador.
- Nossa, foi mesmo. Responde o senhor, olhando pela terceira vez o celular desligado.
- O engraçado é que tava quente e esfriou de uma hora pra outra.
- Foi mesmo... Esse tempo é uma loucura. Esfria e esquenta o tempo todo.
- E o pessoal da previsão do tempo fala que vai esfriar e aí esquenta. Vai entender...
- É, hoje falaram que vai sei a madrugada mais fria do ano.
- Bom, aí é fácil falar, porque a maioria do pessoal vai estar dormindo nessa hora, eu inclusive... Disse a garota já saindo do elevador.

Porém, em cada 100 situações como a descrita acima, marcadas por diálogos fúteis e que não vão dar em nada, ou até mesmo entre aquelas em que ninguém faz nada além de suspirar, arrumar o cabelo, estalar o pescoço, olhar o relógio ou o celular, existe uma conversa que merece registro, dado o grau de conteúdo do diálogo. Esta aconteceu agora cedo:

Três pessoas ainda esperavam o elevador no térreo: eu, uma senhora com uma certa elegância, mas que não parava de andar em círculos, reclamando da demora, e um senhor de terno, do alto dos seus 40 anos. Quase dois minutos de silêncio depois, o elevador chegou. Ele tinha saído do 19º andar. Quando começou a subir, a senhora resolveu quebrar o gelo e dividir conosco um pouco da sua pressa e indignação:

- Estranho este elevador. Já repararam como ele custa a descer, mas sobe numa velocidade incrível?

E o senhor, suspirando, teceu seu comentário:

- É minha senhora, já pensou se fosse assim com tudo na vida? O mundo seria melhor e as pessoas mais felizes e relaxadas.

A senhora olhou para baixo até chegar ao seu andar, o senhor deu uma risadinha maldosa, de quem perde o amigo, mas não a piada, e eu fiquei rindo, internamente, com cara de paisagem.

25 Maio, 2007

Vai ser débito, ou crédito?

Quando viu sua fatura do cartão de crédito, Paulo percebeu que teria que tomar uma atitude. Diante de todas aquelas compras feitas por sua mulher na Internet e em shoppings variados, viu que era hora de falar grosso, de mostrar quem manda, de arrancar aqueles valores exorbitantes daquela temível fatura. Ela estava no banho e ele estava farto daquilo tudo. Teria que ter uma boa conversa! Então, movido por revolta e fúria, não hesitou. Correu em direção ao quarto e ligou para a central de atendimento do cartão.

A vida ensinara que é melhor descontar a raiva em cima de uma outra pessoa, que de preferência não more com você, que não possa te bater devido à distância e, principalmente, que esteja numa ligação por meio de um número 0800. Já tinha acontecido algumas vezes. Em meio a tantas compras salgadas, quase nunca feitas por ele, descobriu certa vez que reclamar sobre a anuidade do cartão lhe garantia uma estranha sensação de conforto. Cada parcela retirada, uma tristeza a menos. Não sabia o porquê, mas funcionava desta forma.

Depois de vários minutos de música de espera, enquanto ainda perambulava frenético entre a sala e o quarto com o telefone sem fio, veio o atendimento:

- Central de atendimento, Ana Cláudia, em que posso ajudar?
- Ana Cláudia?
- Isso mesmo, senhor. Com quem eu falo?
- Você fala com um cliente transtornado com o valor abusivo que sua empresa pratica na anuidade deste cartão. Ah, sim! Meu nome é Paulo.
- Sr. Paulo. Confirme por gentileza o CPF completo do titular e o número do cartão, com o código de segurança.
- Mas outra vez?! No atendimento automático eu digitei tudo duas vezes.
- Sinto muito senhor, mas o sistema não registrou e preciso estar verificando seus dados.
- Ok, ok. Vamos lá 6-8-6-5-5-3-6...
- 6-8-6-5-5-3-3?
- Não, é 6!
- O que é seis?
- O número que falei é 6 e não 3?
- Mas qual dos três? Ou dos seis?
- Vou falar tudo de novo e pronto! 6-8-6-5-5-3-6-7-6-4-6-5-4-3-4-2 é o cartão, 635 é o código de segurança, 0124325456-98 é meu CPF!!!
- Certo Sr. Paulo, então em que posso ajudá-lo?
- Eu quero tirar essa taxa de anuidade absurda daí! Minha mulher usa este cartão de crédito até na padaria, só de milhas adquiridas já posso dar a volta ao mundo 3 vezes e vocês ainda me cobram por isso?!
- Senhor, a taxa de anuidade está prevista em contrato e...
- E nada! Vou cancelar esta porcaria e procurar uma empresa séria que valorize seu cliente!
- Mas senhor, com o nosso cartão o senhor vai estar adquirindo descontos exclusivos nas nossas lojas credenciadas, vai estar ganhando milhas para viajar pela...
- Eu não quero milhas! Eu não quero desconto! Eu não quero anuidade! Que tal fazer uma troca? Vocês não me dão desconto em nada, mas também não me cobram anuidade. Que tal? Hein, hein??
- Senhor, o fato é que...
- Ana Cláudia, minha querida, o fato é que nada que você “vai estar falando”, “vai estar mudando esta situação”, entendeu? Eu quero é retirar este valor ou cancelar este maldito cartão! Será que após séculos de espera na musiquinha, mil confirmações de dados e tudo mais, você não “pode estar excluindo” isso pra mim, imediatamente?!

- Certo, senhor. Só mais um momento.

Música de espera.

- Sr. Paulo, só mais um momento.

Música de espera.


- Senhor, só mais um momento, por gentileza.

Música de espera, outra vez.

- Senhor, a taxa referente à anuidade do seu cartão foi retirada. A partir da próxima fatura, este valor não será mais cobrado. O número que registra sua solicitação é: 674563873

- 674563876?

- Não senhor, é 3 e não 6!
- Mas qual dos 6? Brincadeira! Ta anotado. Obrigado aí Ana Cláudia e desculpa por qualquer coisa, hein?

- Por nada, senhor. Nós é que agradecemos a sua ligação. Boa noite e até o ano que vem em que o senhor vai entrar em contato mais uma vez para contestar esta taxa, ameaçando cancelar o cartão...

Quando desligou o telefone, procurou por sua mulher, que lhe chamou do escritório:

- Amor, pensei que você ia passar a noite neste telefone.
- Pois é. Sabe como são estes atendimentos de cartão de crédito.
- É verdade. Por falar nisso, pega o cartão pra mim? Estou finalizando umas comprinhas bobas aqui na Internet. A TV de plasma baixou de preço, só 12x de R$ 550,00.


E Paulo, cansado de discutir, deu a ela o cartão e foi dormir, certo de que seu casamento iria durar enquanto a moça do cartão não lhe dissesse um não definitivo.

11 Maio, 2007

Nas estrelas



Existe coisa mais moderna do que ter um blog (ou flog, ou fotolog, ou sei lá) ou postar um vídeo no Youtube? Já disseram por aí que se você, de olhos fechados, der tapas e socos no teclado e clicar em “search”, fatalmente encontrará algum vídeo do Youtube. Pode ser de um japonês tocando no piano, de olhos vendados, as músicas do jogo Mário Bros. Podem ser vídeos com dedos das mãos que conversam entre si, pessoas fazendo coisas exóticas (ou bizarras, como preferir) e , naturalmente, imitando outras pessoas. É a chance de estar na TV, sem ter muito dinheiro e, o melhor, sem ter que assaltar banco ou estar envolvido em esquemas de fraude. Basta ter uma câmera, ou celular, que faça filmes e você está no Youtube!

Acabo de ler a notícia dizendo que a Sônia, famosa no mundo virtual por
seu vídeo no Youtube (que é melhor você ver do que eu explicar), acaba de lançar uma loja virtual. Pode parecer incrível, mas a loja da Sônia vende de tudo: artigos para o lar, eletrônicos, etc. A seção de contato não poderia ter nome mais criativo: fala Sônia!

O Blog é mais antigo. A idéia era ter um diário virtual. Finalmente, qualquer vida comum poderia ter cobertura online 24 horas, dependendo apenas da força de vontade do personagem principal: o dono do blog. Os temas são os mais diversos. Diários de cada passo do dia, blog de notícias de gente que queria ser jornalista, mas não é, ou de quem é jornalista, mas não tem emprego. Tem até de jornalista, que tem emprego, mas queria ter mais liberdade. Tem blog de receitas, de poesias, de música e até aqueles que falam sobre bobagens cotidianas.

O fato é que, conforme as novas tecnologias são absorvidas pela maioria, coisas estranhas começam a acontecer. Às vezes, até mesmo no sentido inverso do propósito inicial da idéia. O portal de notícia da Globo.com resolveu investir em uma “nova proposta”: blogs de celebridades. Lá, pessoas famosas escrevem sobre o que quiserem. Geralmente blogs de personalidades não me chamam a atenção, porém um blog em particular me deixou curioso. Trata-se do
“Blog do astronauta” do Marcos César Pontes, o astronauta brasileiro.

Há algum tempo, o astronauta resolveu escrever posts que dão aulas sobre equipamentos e naves espaciais. Cheguei até a ler umas duas postagens, mas o que me chamou a atenção mesmo foi a seção de comentários. Qualquer pessoa pode postar. A maioria elogia o blog e seu conteúdo. Porém, quem critica não é muito gentil. Um dos comentários recentes, pergunta ao astronauta qual seria o motivo de, aos 43 anos, ele ter decretado a sua aposentadoria para ganhar dinheiro na iniciativa privada, com palestras e eventos. A pergunta termina com uma segunda questão. Será que depois de todo o dinheiro investido em sua viagem, de “suma importância para o Brasil”, o astronauta não acha que poderia contribuir com o programa espacial brasileiro em vez de pensar só em si? O desagradável é que Marcos chegou a responder alguns comentários positivos. Porém, os negativos estão sem resposta.

Pra piorar, um dos posts apresenta a foto do astronauta em uma fila de aeroporto. Lá ele faz um desabafo sobre o caos aéreo brasileiro e conta que perdeu o lançamento de um livro de um amigo em uma outra cidade. Diz também que ficou refletindo sobre quantos brasileiros, como ele, estavam perdendo seus compromissos por conta do problema. Encerrou dizendo que o “espírito brasileiro” e o bom-humor são o remédio para diminuir o problema. Não sei se Marcos chegou a ler a seção de comentários, mas por lá passaram pela fase de revolta:

“Ha! até parece que você tinha compromissos! Quem é você pra falar em compromissos!? O país e o povo investiram em você e o seu compromisso! Lançar um livrinho!!!??”

Pela fase política, ainda com ponta de revolta:

“Se, ao invés de nosso governo ter patrocinado seu turismo espacial, tivesse melhorado os salários e condições de trabalho dos controladores, investido em equipamentos, não estaríamos passando por isso. Infelizmente o governo inverte prioridades,e tem mania de mostrar realidade que não é a nossa. Você não é, nunca foi e nunca será mais que um turista espacial.”

E pra encerrar este texto, o comentário carregado de crítica e conteúdo, que revela o senso crítico brasileiro e também seu nível de preocupação com o programa espacial brasileiro e o caos aéreo:

“Comandante Marcos, pelo que pude observar na foto, o senhor utiliza o mesmo aparelho celular que eu, o excelente Nokia 6630, esse meu palpite é correto?”

Sem mais por hoje.

29 Março, 2007

É super seguro...

Certa vez, ainda na faculdade de jornalismo, fui incumbido da missão de realizar uma matéria sobre o Vôo Livre. De posse do meu sensacional gravador de fitas pequenas, de uma câmera (que já era digital) e de um caderninho para anotações, fui para a Serra da Moeda. Neste local em que a natureza foi generosa, existe uma escola de Vôo Livre.

Fui numa manhã de sábado. O clima estava agradável, aquele friozinho da montanha e aquele sol que brilha intenso, mas nem chega a esquentar. No topo da montanha, dezenas de praticantes e admiradores do esporte.

Confesso que o esporte mais radical que já pratiquei deve ter sido andar de skate, em linha reta, em terreno plano, talvez no quintal de casa. Definitivamente, essa coisa de sair por aí voando nunca fez a minha cabeça. Porém, era aprendiz de jornalista, acreditava na busca da imparcialidade. O melhor mesmo era tentar entrevistar os praticantes, sem levar em consideração o que eu jamais faria. E assim foi feito.




MM: A primeira coisa que vem à mente de todo mundo que não é praticante do Vôo Livre é a questão da segurança. O esporte é realmente seguro?

Instrutor: Super seguro. O esporte evoluiu muito com o tempo. Os fabricantes de material de segurança exploram cada vez mais a tecnologia e constroem equipamentos super seguros para os praticantes.

MM: E demora muito pra pessoa poder fazer um salto desses, sozinha?

Instrutor: Tem toda uma preparação. Aqui ensinamos como ela deve proceder em cada etapa do salto, que equipamento utilizar, como proceder em situações de emergência, etc. Tudo visando o bem estar e a máxima segurança do esportista.

MM: E quem, hoje em dia, é destaque no cenário mineiro do Vôo Livre?

Instrutor: Rapaz, se você tivesse vindo aqui semana passada, ainda o teria conhecido. Ele morreu no meio da semana, ali mesmo depois daquela árvore.


Pelo olhar do instrutor, vi que minha esperança de ser uma brincadeira, não se confirmou.



MM: Mas o que aconteceu, afinal? Ele não era experiente??

Instrutor: Era o melhor dos melhores. Estava testando um equipamento mais moderno, que tinha acabado de comprar. Fez um vôo de rotina, só que, de repente, veio uma corrente de vento inesperada e ele caiu ali. Morreu na hora.


Depois que acabei a entrevista, ainda em choque, recebi um convite para realizar um salto acompanhado por um instrutor. Gentilmente, recusei o convite.